No final de mais um ano letivo, não podemos deixar de fazer um balanço sobre o que se passa no mundo com consequências também no nosso país e no nosso sistema educativo. Ainda por cima quando o último ano, devido a guerras/violência às alterações climáticas, foi o pior de sempre em número de pessoas deslocadas à força (123 milhões) e o ano mais mortal para migrantes, com quase 9 mil mortes em todo o mundo.
Nas nossas escolas, fora do horror da Guerra, deparamo-nos diariamente com situações de pobreza, exclusão, ausência de cuidados de saúde, violência, maus-tratos e discriminação.
Recentemente, assistimos à destruição das casas de várias famílias que, embora marcadas pela precariedade, representavam a única habitação a que tinham acesso. A única que lhes foi possível.
Temos acolhido crianças oriundas de contextos marcados pela guerra, pelo medo e pela instabilidade, que são inseridas num ambiente desconhecido, sem referências culturais ou linguísticas, sem conseguir confiar nos adultos que as acolhem, vulneráveis e emocionalmente frágeis.
Apesar do esforço contínuo dos profissionais da educação para promover a sua integração, os planos estratégicos existentes revelam-se insuficientes e pouco articulados, dificultando uma resposta verdadeiramente eficaz. Esta situação levanta questões sobre como apoiar estas crianças e os colegas com quem convivem, no sentido da sua verdadeira Inclusão. Esta ideia, tão presente no discurso educativo, exige mais do que intenções: requer condições reais, estruturadas e consistentes para que todos se sintam incluídos, seguros e valorizados.
Neste contexto, em que os profissionais da educação improvisam respostas para problemas urgentes, torna-se evidente como o discurso da guerra se vai normalizando, enquanto o foco político se desvia de prioridades sociais concretas e inadiáveis. Ao mesmo tempo, está em marcha o colossal aumento do financiamento para a defesa, que resulta do alinhamento entre o Governo, a Comissão Europeia e a NATO. Estamos cientes de que essa suposta “inevitabilidade” irá limitar, ainda mais, o investimento nos Serviços Públicos, com consequências devastadoras a curto, médio e longo prazo.
Este é mais um momento que exige um posicionamento claro dos profissionais da educação.
Assim, assumimos as nossas responsabilidades enquanto agentes ativos na promoção da paz, na defesa dos direitos humanos e na construção de um mundo justo, que repudie a guerra e a crueldade.
Assentes na Convenção sobre os Direitos da Criança, na Declaração Universal dos Direitos Humanos e nos princípios da Convenção de Genebra, temos o dever de denunciar os maus-tratos e a violência sobre todas as crianças, em qualquer parte do mundo.
Entre 2024 e 2025, foram identificados 61 conflitos armados ativos no planeta.
Em 2024 foram documentadas 41.370 violações graves contra crianças em conflitos, o maior volume já registado desde 1996.
Dados mais recentes da ONU e UNESCO/UNICEF documentam uma crise sem precedentes: dezenas de milhares de crianças mortas, feridas, recrutadas ou sequestradas em conflitos armados, em 2024 e início de 2025. O genocídio em Gaza e a fome dramática no Sudão sobressaem como cenários de impacto infantil mais grave.
Forças governamentais e grupos armados foram identificados como os principais responsáveis por mortes, ataques a escolas e hospitais, bem como pela restrição de acesso à ajuda humanitária.
O Sindicato de Todos os Profissionais da Educação não fica em silêncio perante esta tragédia inqualificável.
Conscientes dos desafios que caracterizam a nossa profissão, sentimos uma profunda solidariedade e empatia com todos os profissionais da educação que, em zonas de conflito armado, resistem, persistem e agem, em condições inimagináveis.
Neste sentido, o S.TO.P.:
- Reforça a reivindicação de mais profissionais docentes e não docentes nas escolas.
- Reivindica a aplicação efetiva do Direito Humanitário Internacional.
- Repudia a violência contra todas as crianças vítimas de Guerra e Genocídio.
- Apela ao cessar-fogo imediato em Gaza e à urgência na disponibilização da ajuda humanitária controlada por forças internacionais.
- Apela à solidariedade internacional e ao apoio de todos os Profissionais da Educação e da Saúde que atuam em contextos de Guerra e Genocídio.
- Apoia organizações, nacionais e internacionais, na denúncia de crimes contra a humanidade, na recusa do silêncio perante a impunidade e na defesa dos direitos humanos, da solidariedade e da dignidade de todos os povos.
O S.TO.P. continuará a sua luta pela defesa da Escola Pública, de quem lá trabalha e de quem lá estuda mas sem nunca deixar de olhar sobre o que se passa no mundo.
Pela paz. Pelos direitos humanos. Pelo Futuro.






